Starlink, internet ou arma do arsenal americano contra governos hostis — o caso do Irão
Curtis
da L V L Chincuinha
Mestre
em GMD
RESUMO
Nos últimos
anos, a rede de internet por satélite da SpaceX, conhecida como Starlink,
tem sido apresentada como solução tecnológica para ampliar o acesso global à
internet. Contudo, a sua utilização em contextos de conflito armado e em
operações apoiadas pelos Estados Unidos revela uma dimensão estratégica que
ultrapassa o âmbito estritamente civil. Esta dimensão é confirmada por
evidências documentadas: em junho de 2023, o Departamento de Defesa dos EUA
celebrou um contrato formal com a SpaceX para fornecimento de serviços Starlink
à Ucrânia; em agosto de 2025, o Departamento de Estado aprovou uma venda
militar estrangeira (Foreign Military Sale) no valor de 150 milhões de
dólares para extensão dos serviços Starlink às forças ucranianas (DSCA,
2025); e, em paralelo, a divisão classificada Starshield opera sob um
contrato de 1,8 mil milhões de dólares com o National Reconnaissance Office
(NRO), a agência de satélites espiões dos EUA, assinado em 2021 (Reuters,
2024).
É neste
enquadramento que o caso do Irão assume particular interesse analítico. Em
janeiro de 2026, durante um bloqueio massivo de internet imposto pelo governo
iraniano em resposta a protestos generalizados, o Departamento de Estado dos
EUA adquiriu e fez contrabandear cerca de 7.000 terminais Starlink para
o território iraniano (Wall Street Journal, 2026). A coexistência entre as
medidas adoptadas pelas autoridades iranianas — incluindo jammers militares
de GPS, drones de localização e sentenças de prisão até dez anos — e a
operação de uma rede de satélites gerida por uma empresa privada americana
expôs uma tensão concreta entre conectividade global e soberania estatal. O
caso é agravado pelo facto de a União Internacional das Telecomunicações
(UIT/ITU) ter já decidido, em outubro de 2023, que a Starlink não estava
autorizada a operar em território iraniano — decisão sem mecanismos de execução
efectiva (ITU, 2023; SpaceNews, 2026).
Partindo deste
episódio, o presente artigo propõe uma reflexão sobre a relação entre
infraestruturas globais de comunicação e soberania do Estado, tomando o caso do
Irão como objecto central de análise. Procura-se compreender de que forma uma
rede privada de comunicação por satélite, associada a programas de
financiamento e cooperação governamental, pode assumir funções estratégicas em
contextos de crise política e tecnológica, levantando questões relevantes para
Estados que enfrentam desafios semelhantes na gestão do espaço informacional e
das infraestruturas de comunicação.
INTRODUÇÃO
A expansão das tecnologias de
comunicação por satélite alterou de forma significativa a forma como a internet
pode ser distribuída no mundo. Nos últimos anos, constelações de satélites em
órbita baixa passaram a permitir que o acesso à internet seja feito sem
depender totalmente de infraestruturas instaladas no território dos Estados.
Entre esses projectos, destaca-se a rede de internet por satélite da SpaceX,
conhecida como Starlink, que foi concebida com o objectivo de oferecer
conectividade global através de milhares de satélites posicionados em órbita
terrestre baixa.
À primeira vista, trata-se de um
projecto tecnológico voltado para ampliar o acesso à internet, sobretudo em
regiões onde as redes tradicionais são frágeis ou inexistentes. No entanto, à
medida que a rede se expandiu, tornou-se evidente que a sua utilização não se
limita apenas ao campo comercial ou civil.
A primeira grande visibilidade
internacional sobre o papel estratégico do Starlink ocorreu durante a
invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022. Nos primeiros meses do conflito,
a USAID forneceu cerca de 5.000 terminais ao país (Newsweek, 2026). Em junho de
2023, o Pentágono formalizou um contrato — avaliado pela Bloomberg em 23
milhões de dólares numa primeira fase — para cobrir os custos operacionais do
serviço no teatro de guerra ucraniano (Reuters, 2023; Bloomberg, 2024). Este
percurso evidencia a transição da Starlink de ferramenta de emergência
civil para componente integrante da assistência militar americana.
Quando uma rede privada de
comunicação passa a desempenhar funções desta natureza, abre-se inevitavelmente
um debate mais amplo. A questão deixa de ser apenas tecnológica e passa a
envolver também temas relacionados com poder, território e autoridade do Estado.
Infraestruturas de comunicação sempre tiveram um papel estratégico na
organização do poder político, e a emergência de redes globais que operam para
além das infraestruturas nacionais coloca novas perguntas sobre quem controla,
afinal, os fluxos de informação.
O padrão geopolítico tornou-se
ainda mais evidente quando, em janeiro de 2026, a SpaceX activou serviço
gratuito na Venezuela — dias após uma operação militar americana que resultou
na captura do presidente Nicolás Maduro — e, simultaneamente, no Irão durante
os protestos de janeiro de 2026 (CNBC, 2026; CNN, 2026). A recorrência deste
comportamento em cenários de mudança de regime apoiada por Washington
sugere que a activação do Starlink gratuito constitui, na prática, um
instrumento de política externa americana.
É neste ponto que o caso do Irão
se torna particularmente relevante para análise, permitindo desenvolver uma
reflexão mais ampla sobre a relação entre infraestruturas globais de
comunicação e soberania dos Estados, questão que constitui o centro da
discussão apresentada neste artigo.
2. STARLINK E A TRANSFORMAÇÃO DAS
COMUNICAÇÕES EM CONTEXTOS DE GUERRA
O desenvolvimento de redes de
internet por satélite em órbita baixa criou uma nova realidade para as
comunicações em cenários de crise. Sistemas como a constelação da SpaceX,
conhecida como Starlink, permitem estabelecer conectividade mesmo quando
infraestruturas locais de comunicação estão comprometidas (Chen, 2024).
Durante a guerra na Ucrânia, a Starlink
passou a ser utilizada para restabelecer comunicações em zonas onde as redes
tradicionais haviam sido destruídas. Milhares de terminais foram distribuídos
para autoridades públicas e forças militares, garantindo que unidades no
terreno mantivessem contacto constante (Belfer Center, 2023). A rede não serviu
apenas para comunicação de emergência. Relatórios indicam que os terminais
foram integrados na coordenação de operações com drones e na transmissão de
informação em tempo real, funcionando como suporte táctico no campo de batalha
(Reuters, 2026). Este uso evidencia a natureza de duplo propósito da
tecnologia: sistemas concebidos originalmente para fins civis podem adquirir
funções estratégicas quando aplicados em contextos de conflito (Muthia, 2025).
A militarização da Starlink tem,
contudo, uma arquitectura financeira documentada que vai muito além do apoio
pontual. Em agosto de 2025, a Defense Security Cooperation Agency (DSCA)
do Departamento de Estado norte-americano aprovou uma possível venda militar
estrangeira (Foreign Military Sale — FMS) à Ucrânia no valor estimado de
150 milhões de dólares, incluindo serviços de comunicação por satélite, apoio
técnico, logístico e de engenharia (DSCA, 2025). Essa aprovação foi notificada
formalmente ao Congresso dos EUA, integrando a Starlink no mecanismo
oficial de assistência de defesa. Num plano paralelo e mais sigiloso, a divisão
Starshield — unidade de negócios militares da SpaceX — opera sob
um contrato classificado de 1,8 mil milhões de dólares assinado em 2021 com o National
Reconnaissance Office (NRO), para o desenvolvimento de uma constelação de
centenas de satélites espiões em órbita baixa com capacidade de mapeamento
terrestre contínuo e vigilância global (Reuters, 2024). Adicionalmente, a SpaceX
assegurou um contrato com a United States Space Force no valor de 70
milhões de dólares para serviços Starshield (Space.com, 2024).
|
Starlink vs. Starshield: qual é a diferença? O Starlink é a
constelação comercial “civil” (~7.000 satélites). O Starshield é a
variante militarizada, com criptografia de grau classificado, capacidade para
transportar cargas úteis ofensivas e integração com o sistema Joint
All-Domain Command and Control (JADC2) do Pentágono. Os mesmos
satélites físicos podem servir ambos os propósitos — o que constitui, em si,
o núcleo do problema dual-use. |
A presença de uma empresa privada
na infraestrutura crítica de comunicação altera a relação tradicional entre
Estado e controlo de informação. Decisões empresariais podem influenciar
directamente operações militares ou a continuidade de comunicações estratégicas
(Abels, 2024). A experiência da Ucrânia demonstrou também que a tecnologia
privada pode servir como instrumento de dissuasão ou vantagem estratégica.
Estados observam atentamente a forma como a Starlink sustenta
comunicações durante ataques, interferências e apagões, reconhecendo o seu
valor no equilíbrio informacional (CSIS Analysis, 2023). Redes de internet por
satélite, nesse contexto, não são apenas instrumentos de conectividade; elas
podem sustentar operações militares, coordenação de forças e sistemas de
informação críticos, aproximando-se de uma função de infraestrutura de guerra
tecnológica.
Essa transformação leva a uma
reflexão crucial: quando empresas privadas operam redes globais capazes de
sustentar operações militares, surgem implicações directas para a soberania dos
Estados e para a gestão de crises informacionais, cenário que será explorado
detalhadamente no caso do Irão.
3. O CASO DO IRÃO: STARLINK
EM TENSÃO COM A AUTORIDADE ESTATAL
A tensão entre a Starlink
e o Estado iraniano não começou em 2026. Em 2022, o Irão apresentou uma queixa
formal à União Internacional das Telecomunicações (UIT/ITU), alegando que a
operação de terminais Starlink no seu território violava o direito
internacional das telecomunicações. Em outubro de 2023, o Comité do Regulamento das
Radiocomunicações (Radio Regulations Board) da ITU
decidiu a favor do Irão, determinando que a Starlink estava obrigada a
não prestar serviços em território iraniano sem autorização. A decisão, porém,
revelou-se sem efeito prático: a ITU não dispõe de mecanismos de execução
coerciva, e a SpaceX continuou a operar (ITU, 2023; MIAAN, 2023). O
episódio expôs uma lacuna estrutural do direito internacional espacial face às
redes de órbita baixa.
Em janeiro de 2026, quando o
governo iraniano impôs um dos bloqueios de internet mais completos da sua
história em resposta a protestos motivados pela desvalorização da moeda e crise
económica, a dimensão da operação americana revelou-se. O Wall Street
Journal reportou, com base em fontes oficiais, que o Departamento de Estado
dos EUA adquiriu aproximadamente 7.000 terminais Starlink — a maioria em
janeiro de 2026 — redirecionando fundos de programas anteriores de liberdade de
internet no Irão, e organizou o seu contrabando para o país. O Presidente Trump
tinha conhecimento das entregas. A Casa Branca recusou comentar (Wall Street Journal
/ Monitor do Oriente, 2026).
O contrabando era organizado
através de redes clandestinas coordenadas em canais do Telegram, com
rotas pelos Emirados Árabes Unidos, Curdistão iraquiano, Arménia e Afeganistão,
a um custo de contrabando de 700 a 800 dólares por terminal (New York Times,
2026; O Globo, 2026). Os terminais foram instalados em telhados de edifícios
urbanos e rurais, permitindo a transmissão em tempo real de imagens de tropas a
disparar nas ruas.
A resposta do governo iraniano
operou em três frentes: (1) interferência na frequência
de rádio com equipamento de nível militar para degradar o sinal do Sistema de Posicionamento Global (GPS) necessário ao funcionamento dos terminais; (2) uso de drones para
localização de terminais instalados em telhados; (3) criminalização da posse de
equipamento Starlink, com penas de seis meses a vários anos previstas na
legislação aprovada após a guerra de 12 dias entre Israel e Irão em junho de
2025, podendo chegar a dez anos em casos de uso para espionagem (Iran
International, 2025; Reuters, 2026; SpaceNews, 2026).
A dinâmica entre a presença de Starlink
no terreno e as respostas do Estado iraniano evidenciou uma situação de tensão
entre uma tecnologia global de comunicação e a prerrogativa estatal de
regulamentar, controlar ou restringir o acesso ao território nacional. Este
episódio expõe a forma como tecnologias de comunicação global podem interagir
com as estruturas de poder estatal, criando desafios concretos para Estados que
buscam manter controlo sobre o território e sobre os fluxos de informação em
períodos de instabilidade.
4. GUERRA INFORMACIONAL E
DESINFORMAÇÃO: O PAPEL DA STARLINK NO IRÃO
A presença de terminais Starlink
no Irão durante o bloqueio de internet de 2026 não se limitou à manutenção de
conectividade; também teve implicações na circulação de informação e na
narrativa mediática dentro e fora do país. Cidadãos e grupos dentro do Irão
utilizaram a rede para enviar notícias, vídeos e comunicações que não passavam
pelos canais estatais de informação, criando fluxos paralelos de dados que
podiam influenciar percepções públicas e internacionais (Rest of World, 2026).
Vídeos e transmissões sobre manifestações chegaram rapidamente a plataformas
globais, demonstrando a capacidade da Starlink de sustentar fluxos de
informação mesmo em contextos de blackout (Iran International, 2026).
O caso iraniano, no entanto, não
é isolado. Em 5 de janeiro de 2026, após uma operação militar americana que
resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, a SpaceX activou
serviço Starlink gratuito na Venezuela até 3 de fevereiro de 2026, sem
qualquer anúncio prévio de humanitarismo — a oferta surgiu directamente
articulada com o contexto da operação americana (CNBC, 2026). A coincidência
temporal entre acções militares ou políticas dos EUA e a activação gratuita do Starlink
em países-alvo — Venezuela em janeiro, Irão em janeiro, ambos no mesmo mês de
2026 — sugere um padrão de uso geopolítico, que Mustafa Bilal, investigador do Centre
for Aerospace & Security Studies (CASS), descreve como "diplomacia
privatizada" (privatised diplomacy) com sérias questões de prestação de contas (SpaceNews, 2026).
Relatórios técnicos indicam que a
rede de satélites, ao operar fora do controle directo dos Estados, oferece
resiliência parcial à censura digital, mas não absoluta. A interferência de
rádio e a fiscalização física limitaram significativamente a consistência do
serviço, gerando zonas de conectividade fragmentada (Rest of World, 2026). Isso
mostra que o acesso à informação permaneceu desigual e sujeito às capacidades
de resposta estatal.
O Irão recorreu à ITU pela
segunda vez em janeiro de 2026, durante os protestos, solicitando acção
imediata. O organismo internacional voltou a reconhecer a posição iraniana, mas
— como em 2023 — sem capacidade de impor o cumprimento à SpaceX. Isto
levou investigadores a concluir que "os mecanismos internacionais
existentes são insuficientes para lidar com redes privadas de satélites que
operam intencionalmente fora do quadro de autorização nacional" (Digital
Medusa, 2023; PressTV/ITU, 2026).
A circulação de desinformação e
narrativas contraditórias foi um tema central. A utilização de terminais Starlink
facilitou a difusão rápida de conteúdos que, em algumas situações, incluíam
informações não verificadas sobre confrontos e movimentos sociais (Reuters,
2026). Esses fluxos informacionais mostraram como a tecnologia pode alterar o
ritmo e o alcance da informação, sem necessariamente controlar a veracidade do
conteúdo.
Além disso, a presença de uma
rede privada com alcance global reforçou a percepção de dependência tecnológica
externa. Quando o Estado não detém controlo sobre a infraestrutura de
comunicação, ele perde capacidade de gerir a narrativa nacional em momentos de
crise, o que coloca a soberania em tensão frente a actores privados (Muthia,
2025). No contexto do Irão, a Starlink funcionou como um vetor que
permitiu simultaneamente a transmissão de informações críticas e a circulação
de conteúdos contestados, colocando desafios à política de controle de
informação do governo (TechRadar, 2026).
A reflexão sobre o caso iraniano
evidencia que a tecnologia de comunicação privada, mesmo quando apresentada
como ferramenta de conectividade civil, pode assumir um papel estratégico em
contextos de guerra informacional. A gestão e o financiamento de tais redes,
especialmente com vínculos a Estados que possuem interesse em operações
híbridas, implicam que a soberania de um Estado pode ser confrontada por
infraestruturas que operam acima ou à margem das políticas nacionais (Abels,
2024).
5. FINANCIAMENTO E USO MILITAR DA
STARLINK: CONTRATOS, APOIO ESTATAL E EVIDÊNCIAS FACTUAIS
Ao longo do conflito na Ucrânia,
a Starlink deixou de ser apenas uma rede privada de internet e passou a
desempenhar um papel significativo na provisão de comunicações em zonas de
guerra. A arquitectura
financeira que sustenta este papel está hoje amplamente documentada, conforme
sintetizado na tabela abaixo:
|
Entidade |
Tipo |
Valor |
Ano |
Fonte |
|
USAID |
Terminais para Ucrânia |
~5.000 terminais |
2022 |
Newsweek, 2026 |
|
Pentágono (DoD) |
Contrato
Starlink/Ucrânia |
$23M (fase inicial) |
2023 |
Bloomberg, 2024 |
|
DSCA/Dept. de Estado |
FMS Ucrânia (extensão) |
$150M |
Agosto 2025 |
DSCA, 2025 |
|
NRO (inteligência) |
Starshield espionagem |
$1,8 mil milhões |
2021 |
Reuters, 2024 |
|
US Space Force |
Starshield (Space Force) |
$70M |
2024 |
Space.com, 2024 |
|
Dept. de Estado |
Terminais Irão
(contrabando) |
~7.000 terminais |
Jan. 2026 |
WSJ / Monitor do
Oriente, 2026 |
A soma dos contratos públicos
verificáveis supera os 2 mil milhões de dólares, excluindo valores
classificados. A SpaceX recusou comentar os contratos do NRO; o
Pentágono remeteu para a SpaceX e para o NRO. Nenhum dos dois confirmou
os detalhes operacionais por "razões de segurança operacional"
(Reuters, 2023; Reuters, 2024).
É importante destacar que, embora
exista esse apoio estatal directo, o uso militar da rede não é explicitamente
declarado como ofensivo nos contratos públicos. Os termos de serviço da Starlink
proíbem o uso da rede para "operações militares ofensivas", obrigando
a empresa a limitar ou monitorizar certas aplicações estratégicas da tecnologia
(Euronews, 2026). Tal posicionamento sublinha a complexidade da relação entre
infraestrutura civil e uso em contexto bélico.
Observadores e analistas de
política espacial e de defesa sublinham que esse tipo de financiamento e
utilização reflecte uma mudança no papel de infraestruturas tecnológicas
privadas. Redes como a Starlink, quando integradas em programas de
assistência estatal e acopladas a estratégias de operação militar, passam a ser
percebidas não apenas como ferramentas de conectividade, mas como componentes
funcionais que sustentam a comunicação táctica em conflitos modernos
(Turn0news32).
Esse modelo de envolvimento
estatal em tecnologia civil contrasta com modelos tradicionais em que governos
desenvolvem e mantêm as suas próprias redes de comunicação. A participação
crescente do Departamento de Defesa dos EUA em contratos de serviços Starlink
destaca um papel activo do Estado em usar, financiar e legitimar o uso de uma
infraestrutura privada num ambiente de guerra, com implicações significativas
para a soberania dos Estados onde a rede opera.
As evidências de contratos
estatais, financiamento público e uso em contextos militares mostram que a
Starlink se insere hoje numa zona de intersecção entre tecnologia privada e
política estatal de segurança. A análise dessa intersecção ajuda a compreender
os desafios que surgem quando infraestruturas globais de comunicação são
mobilizadas em contextos de crise política e militar.
6. IMPLICAÇÕES PARA ESTADOS DO
SUL GLOBAL: MOÇAMBIQUE E OUTROS CONTEXTOS
A presença de redes globais de
satélite, como a Starlink, levanta questões críticas para países do Sul
Global. Apesar de se apresentar como uma solução de conectividade civil, o
envolvimento da Starlink em contextos de conflito — financiada por
agências governamentais e integrada em operações militares — revela uma
natureza estratégica que pode afectar directamente a soberania de Estados que
não controlam essas infraestruturas. Para países como Moçambique, que enfrentam
instabilidade em algumas regiões e dependem crescentemente de tecnologias
externas, a entrada da Starlink no território não é um facto neutro.
Moçambique foi o primeiro país
africano a conceder licença à Starlink, em fevereiro de 2022, segundo o
Instituto Nacional de Comunicações de Moçambique (INCM) e confirmado pelo
Relatório de Clima de Investimento de 2025 do Departamento de Estado dos EUA
(U.S. State Department, 2025). Desde então, a tecnologia expandiu-se para
resposta a emergências: em 2024, a SpaceX e a Vodacom utilizaram
terminais Starlink em zonas afectadas por inundações severas para manter
a conectividade de equipas de socorro (Club of Mozambique, 2024).
No entanto, a experiência
internacional — particularmente na Ucrânia e no Irão — sugere que a mesma
infraestrutura que oferece conectividade civil pode ser mobilizada para fins
estratégicos por actores externos. A província de Cabo Delgado, em Moçambique,
tem sido palco de um conflito armado desde 2017, com grupos insurgentes a
controlar partes do território. Numa região onde as comunicações são
frequentemente interrompidas ou controladas pelas partes em conflito, a
disponibilidade de uma rede como a Starlink poderia ser usada por
diferentes actores.
|
Evidência documentada de uso por grupos insurgentes em Moçambique Em 2025, a organização African Security Analysis (ASA) publicou um
relatório que documenta o uso de terminais Starlink por redes jihadistas
africanas, incluindo em teatros costeiros e insulares em Moçambique — zonas
onde a conectividade terrestre é deficiente, como Cabo Delgado. Segundo o
relatório, os terminais permitem "manter comunicações de alta largura de
banda a partir de santuários remotos, melhorando dramaticamente o comando e
controlo, a divulgação mediática e a coordenação transfronteiriça". O
relatório recomenda especificamente a monitorização de fluxos de equipamentos
Starlink nos nós de aprovisionamento de Cabo Delgado e Mogadíscio, entre
outros (African Security Analysis, 2025). |
Em agosto de 2025, o Ruanda e
Moçambique assinaram um acordo de defesa formalizando a presença de tropas
ruandesas em Cabo Delgado (Ecofin Agency, 2025). Num contexto em que forças
estrangeiras operam na região e em que grupos armados utilizam tecnologia de
comunicação avançada, a questão do controlo sobre quem acede à rede Starlink
em território moçambicano — e em que condições — coloca-se com urgência
renovada.
Além da segurança, Moçambique tem
enfrentado desafios relacionados com desinformação e manipulação de narrativas
em contextos eleitorais e de conflito. A circulação de informação não filtrada
por canais oficiais, facilitada por redes como a Starlink, pode ter
efeitos ambivalentes: por um lado, permite o acesso a informação diversificada;
por outro, pode amplificar discursos de ódio ou notícias falsas,
desestabilizando ainda mais o tecido social. A experiência do Irão mostra como
terminais de satélites podem servir para difundir rapidamente conteúdos não
verificados, criando desafios adicionais para a governação da informação.
Outro aspecto relevante é a
dependência tecnológica. Países como Moçambique, que não possuem capacidade
própria de lançamento e manutenção de satélites, tornam-se consumidores de
infraestruturas controladas por empresas estrangeiras, frequentemente sediadas
em países com agendas geopolíticas próprias. A Starlink, embora privada,
mantém relações estreitas com o governo dos EUA, como demonstram os contratos
com o Pentágono, USAID e o NRO. Isso significa que a continuidade e as regras
de uso da rede podem estar sujeitas a interesses externos.
O caso de Moçambique não é único
na sua vulnerabilidade. O Sri Lanka suspendeu o processo de licenciamento da Starlink
em 2025 precisamente por receios de soberania idênticos aos agora expostos pelo
caso iraniano: a possibilidade de que uma rede privada americana possa ser
activada ou desactivada para servir interesses geopolíticos externos,
independentemente das políticas nacionais (SpaceNews, 2026). Para países do Sul
Global com instabilidade interna, a decisão de licenciar ou não o Starlink
é, antes de qualquer coisa, uma decisão de soberania.
Portanto, a análise do caso
moçambicano, integrada à reflexão mais ampla sobre a Starlink, reforça a
tese central deste modesto artigo: redes privadas de comunicação global,
financiadas e apoiadas por Estados com interesses estratégicos, podem
interferir directamente na soberania de Estados periféricos, especialmente em
contextos de conflito ou instabilidade política. Ignorar essa dimensão é
aceitar passivamente uma erosão da autoridade estatal sobre o território e
sobre os fluxos de informação que nele circulam.
CONCLUSÃO
A análise desenvolvida ao longo
deste artigo permitiu compreender de que forma a Starlink, rede de
internet por satélite da SpaceX, ultrapassa o âmbito de um mero projecto
comercial de conectividade para assumir funções estratégicas em contextos de
conflito e crise política. Os casos da Ucrânia e do Irão evidenciam duas
dimensões complementares dessa transformação: no primeiro, a rede foi integrada
em operações militares com financiamento e apoio directo do governo dos Estados
Unidos, materializado em contratos que ultrapassam os 2 mil milhões de dólares;
no segundo, a sua presença não autorizada em território iraniano desafiou as
medidas de controlo estatal sobre a internet, com o envolvimento directo do
Departamento de Estado no contrabando de milhares de terminais.
A experiência ucraniana revelou o
carácter dual da tecnologia: concebida para fins civis, a Starlink tornou-se
um instrumento de comunicação táctica, suporte a operações com drones e
coordenação de forças no terreno. A existência da divisão Starshield,
com contratos classificados com agências de inteligência, confirma que a
arquitectura da rede foi desde cedo desenhada para acomodar finalidades
militares e de vigilância global.
O episódio iraniano, por seu
turno, ilustra os limites e as possibilidades dessa interferência. Apesar da
capacidade técnica da Starlink para contornar bloqueios estatais, o
governo iraniano respondeu com medidas de interferência eletromagnética, drones
de localização e criminalização da posse de equipamentos. A decisão da ITU,
favorável ao Irão mas sem mecanismos de execução, expôs a fragilidade do
direito internacional face a redes privadas que operam à margem das jurisdições
nacionais. O padrão observado na Venezuela no mesmo mês de janeiro de 2026 —
activação de serviço gratuito imediatamente após uma operação militar americana
— sugere que a Starlink funciona, na prática, como um instrumento de
política externa dos Estados Unidos.
A inclusão do caso de Moçambique
na reflexão permitiu alargar o debate para o Sul Global. A concessão de licença
à Starlink em 2022, embora apresentada como oportunidade de inclusão
digital, carrega consigo os mesmos riscos identificados noutros contextos:
dependência tecnológica, possibilidade de uso estratégico por actores externos
e dificuldade de regulação. A evidência documentada de uso de terminais por
grupos jihadistas em Cabo Delgado (African Security Analysis, 2025) e a
presença de forças estrangeiras na região tornam a questão do controlo sobre a
rede particularmente urgente.
A questão central que atravessa
todo o artigo é a da soberania do Estado sobre o seu espaço informacional. Numa
época em que empresas privadas gerem constelações de satélites com alcance
global, a capacidade dos Estados para regularem, monitorizarem ou restringirem
fluxos de informação nos seus territórios é posta à prova. A Starlink,
ao operar com financiamento e alinhamento estratégico com os Estados Unidos,
não é um actor neutro: a sua activação ou desactivação em determinados
contextos responde a interesses que não coincidem necessariamente com os das
nações onde os terminais estão fisicamente localizados.
A reflexão
aqui apresentada não pretende condenar a tecnologia em si, mas sim chamar a
atenção para a necessidade de os Estados, especialmente os do Sul Global,
desenvolverem políticas conscientes para lidar com esta nova realidade. A
soberania digital não pode ser dada como adquirida; ela exige investimento em
infraestruturas próprias, regulação clara da entrada e operação de redes
estrangeiras, e capacidade técnica para responder a interferências externas. A
suspensão do licenciamento pelo Sri Lanka em 2025 é exemplo de uma postura
preventiva que Moçambique e outros países deveriam considerar.
O caso do Irão e os precedentes
abertos pela guerra na Ucrânia constituem alertas que não devem ser
desprezados. A Starlink
representa um desafio à soberania territorial que durante séculos
assentou no princípio da autoridade exclusiva do Estado dentro das suas
próprias fronteiras. A forma como cada país responderá a esse desafio
determinará, em grande medida, a sua capacidade de preservar a autonomia num
mundo cada vez mais conectado e, ao mesmo tempo, mais assimétrico no acesso e
controlo das infraestruturas críticas de comunicação.
BIBLIOGRAFIA
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Iran International. (2025, 15
de junho). Iran passes law criminalizing Starlink possession with up to 10
years imprisonment.
Monitor do Oriente. (2026, 13
de fevereiro). EUA enviaram milhares de terminais Starlink para o Irão
após repressão aos protestos.
New York Times. (2026, 28 de
janeiro). How the U.S. smuggled thousands of Starlink terminals into Iran.
Reuters. (2024, 16 de
março). Musk's SpaceX is building spy satellite network for US
intelligence agency.
Space.com. (2024, 15 de
janeiro). SpaceX's Starshield wins $70 million contract from US Space
Force.
Wall Street Journal. (2026, 10
de fevereiro). U.S. secretly smuggled Starlink terminals into Iran during
protests.
