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O Primeiro Cancro da Defesa Nacional: O Regresso Urgente dos Oficiais às Trincheiras

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O discurso de Sua Excelência Daniel Francisco Chapo, Presidente da República e Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança, na abertura do XXVI Conselho Coordenador do Ministério da Defesa Nacional (MDN) em Maputo, a 5 de dezembro de 2025, não foi apenas um acto protocolar. Foi um alerta severo e um apelo à acção, marcado pela identificação de vários "cancros" que ameaçam a saúde do sector da defesa e, por extensão, a própria estabilidade do Estado moçambicano. O primeiro destes "cancros" — e talvez o mais sintomático da disfunção institucional — é a alocação indevida de oficiais das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) a serviços no sector civil, enquanto o país enfrenta uma ameaça terrorista persistente, particularmente em Cabo Delgado. O Presidente Chapo questionou de forma incisiva: "Como é que se explica que haja muita gente das Forças Armadas de Defesa de Moçambique a prestar serviço fora da corporação, numa situação em que somos alvos do t...

Da Conectividade à Contestação: A Geração Z e a Desestabilização Política no Nepal — Reflexões para Moçambique e a FRELIMO enquanto Partido Governante

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Por Curtis Chincuinha  1. Resumo Este artigo propõe uma reflexão sobre a queda do governo do Nepal em setembro de 2025, liderado por K.P. Sharma Oli, do Partido Comunista do Nepal (Unified Marxist–Leninist – CPN-UML), em coligação com o Nepali Congress (NC). A crise política foi desencadeada por múltiplos factores, incluindo denúncias de corrupção e nepotismo, bloqueio e restrição de plataformas digitais, como o TikTok, e a crescente mobilização da Geração Z, que utilizou ferramentas digitais para organizar protestos, amplificar insatisfações populares e contornar limitações governamentais. Estes movimentos culminaram na renúncia de Oli e na formação de um governo interino. A reflexão distingue os mecanismos tecnológicos (amplificação algorítmica, coordenação de baixo custo, redes de micro-influência) dos condicionantes estruturais (desemprego juvenil, desigualdade e fragilidade institucional), evidenciando como a mobilização digital actuou como instrumento estratégico para desesta...

Vigiar e Punir 2.0: A Disciplina Algorítmica e os Desafios de Moçambique

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Por Curtis Chincuinha  Resumo A obra Vigiar e Punir (1975), de Michel Foucault, revela como o poder moderno se organiza não mais pelo castigo físico visível, mas por uma vigilância difusa que molda comportamentos, regula o quotidiano e produz subjectividades conformes às normas sociais. Ao deslocar o olhar foucaultiano para a era digital, percebe-se que as grandes empresas tecnológicas e as redes sociais funcionam como novos panópticos: estruturas invisíveis que organizam fluxos de informação, definem padrões de visibilidade e induzem a auto-regulação dos indivíduos. Nesse contexto, Moçambique surge como um exemplo de espaço nacional imerso nesta lógica global, onde as práticas digitais reflectem a tensão entre soberania local e poder transnacional. O país, embora periférico na economia digital, sente os efeitos da vigilância algorítmica, da normatização global e da influência das decisões de corporações estrangeiras, demonstrando que a reflexão foucaultiana permanece pertinente pa...

Multidões Inventadas: Como Bots e Phone Farms Podem Inflacionar Audiências em Lives e Criar a Falsa Ideia de Popularidade em Moçambique

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  Por Curtis Chincuinha A explosão das redes sociais transformou as plataformas digitais em verdadeiras arenas onde se disputa poder, seja ele político, económico ou simbólico. No entanto, esta revolução trouxe consigo uma nova forma de distorção: a criação deliberada de audiências artificiais, que desafia os limites da autenticidade no mundo online. Para compreendermos o impacto desta prática em Moçambique, é fundamental conhecer os mecanismos que a tornam possível. Entre os principais recursos usados para inflacionar números destacam-se os bots, as phone farms e os clusters de perfis falsos. Bots são programas de computador desenhados para executar tarefas repetitivas, como assistir a transmissões, reagir a publicações ou comentar em intervalos programados. Embora sejam ferramentas neutras na sua essência, quando usados para manipulação tornam-se instrumentos de fraude. As phone farms (ou quintas de telemóveis) consistem em redes físicas de dezenas ou centenas de aparelhos, todos...

Soberania Digital e Poder das Big Techs: O Caso Brasileiro e Lições para Moçambique

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Por Curtis Chincuinha Resumo A presente reflexão explora o embate entre o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, personificado pelo ministro Alexandre de Moraes, e as gigantes globais da tecnologia, as chamadas Big Techs. Partindo da teoria de Jack Goldsmith sobre jurisdição e soberania na internet, o estudo investiga como a soberania digital nacional é posta à prova pela actuação transnacional dessas corporações. O caso brasileiro serve como um exemplo prático para debater a tensão entre a legislação local e as políticas corporativas globais, além de oferecer lições cruciais para países africanos, em particular Moçambique, na sua busca por consolidar a autonomia digital. O artigo conclui sublinhando a importância de fortalecer os mecanismos jurídicos e regulatórios para assegurar a efectividade da soberania digital num cenário de globalização tecnológica. Introdução A crescente influência das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como Big Techs, maioritariamente sediadas no Va...

Convocar, Mobilizar, Enfrentar: O Papel das Redes Sociais Digitais na Tentativa de Golpe de Estado em Moçambique a 7 de Novembro de 2024

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Por Curtis Chincuinha  Resumo O presente artigo examina os acontecimentos de 7 de Novembro de 2024, em Moçambique, à luz do conceito de golpe de Estado híbrido. Parte-se da hipótese de que as acções desenvolvidas nesse contexto ultrapassaram os limites de manifestações populares espontâneas, configurando uma estratégia deliberada de subversão político-institucional. Utiliza-se como base teórica a abordagem de Singh (2014), que reformula o conceito de golpe ao incluir formas indirectas de coerção, bem como as contribuições de Patrikarakos (2017) sobre a centralidade das redes sociais na guerra informacional contemporânea. A análise identifica indícios de planeamento prévio, como a circulação de instruções operacionais e a mobilização interprovincial de manifestantes, articulando uma tentativa de captura simbólica do poder político. A resposta estatal, por meio da contenção territorial e de acções de comunicação estratégica, corrobora o entendimento de que se tratou de uma ameaça à o...